Benvindos à caverna da australopiteka. Nao estranhem se encontrarem sombras nas paredes. São resquícios da evolução.


























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Caverna da australopiteka
Sábado, Fevereiro 01, 2003

6:01 PM Publicado por: australopitekaComments:






CANÇÃO



O peso do mundo

é o amor.

Sob o fardo

da solidão,

sob o fardo

da insatisfação



o peso

o peso que carregamos

é o amor.



Quem poderia negá-lo?

Em sonhos

nos toca

o corpo,

em pensamentos

constrói

um milagre,

na imaginação

aflige-se

até tornar-se

humano -

sai para fora do coração

ardendo de pureza -



pois o fardo da vida

é o amor,



mas nós carregamos o peso

cansados

e assim temos que descansar

nos braços do amor

finalmente

temos que descansar nos braços

do amor.



Nenhum descanso

sem amor,

nenhum sono

sem sonhos

de amor -

quer esteja eu louco ou frio,

obcecado por anjos

ou por máquinas

o último desejo

é o amor

- não pode ser amargo

não pode ser negado

não pode ser contido

quando negado:

o peso é demasiado

deve dar-se
sem nada de volta

assim como o pensamento

é dado

na solidão

em toda a excelência

do seu excesso.



Os corpos quentes

brilham juntos

na escuridão,

a mão se move

para o centro

da carne,

a pele treme

na felicidade

e a alma sobe

feliz até o olho -



sim, sim,

é isso que

eu queria,

eu sempre quis,

eu sempre quis

voltar

ao corpo

em que nasci.

Allen Ginsberg - 1926/1997

5:35 PM Publicado por: australopitekaComments:


Sexta-feira, Janeiro 31, 2003



Salvador Dali - Basket of a bread- 1926

6:24 PM Publicado por: australopitekaComments:




...e são tantas fomes espalhadas pelo mundo....


Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

José Saramago

6:05 PM Publicado por: australopitekaComments:


Quinta-feira, Janeiro 30, 2003



Vincent Van Gogh - A Vase of roses - 1890

2:27 PM Publicado por: australopitekaComments:




Olha, está chovendo na roseira....
e eu sinto tanta saudades de vc...
e a Gal continua cantando divinamente esta música do Jobim..
E eu continuo sentindo tanto a tua falta....

2:23 PM Publicado por: australopitekaComments:




2:12 PM Publicado por: australopitekaComments:





Para os meus filhos...para os nossos filhos...para todos os filhos do mundo...nossas únicas e verdadeiras raízes...,

com amor....


CARTA A MEUS FILHOS ......*





Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.



(...)


Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia

- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -

não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.





Lisboa, 25/6/1959


Jorge de Sena




2:04 PM Publicado por: australopitekaComments:


Quarta-feira, Janeiro 29, 2003

7:34 PM Publicado por: australopitekaComments:




À propósito disto...


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.

Maiakovski


6:40 PM Publicado por: australopitekaComments:


Terça-feira, Janeiro 28, 2003

9:52 PM Publicado por: australopitekaComments:




Encontramos dentro de nós dois também isto...a liberdade de voar juntos..


Tu a quem não digo...



Porque é culpa, se alguma coisa é culpa,

não multiplicar a liberdade de um ser amado

de toda a liberdade que em nós possamos achar.

Onde amamos, temos apenas isto:

deixar-nos uns aos outros; porque prender-nos

é-nos fácil e não é preciso aprendê-lo.

(Rainer maria Rilke)


7:19 PM Publicado por: australopitekaComments:


Segunda-feira, Janeiro 27, 2003



(Pablo Picasso - D.Quixote)

10:14 AM Publicado por: australopitekaComments:






PARA ALCANÇARES O QUE NÃO SABES
TENS QUE SEGUIR O CAMINHO DA IGNORANCIA.
PARA POSSUIRES O QUE NÃO POSSUIS
TENS QUE SEGUIR O CAMINHO DA RENÚNCIA.
PARA SERES O QUE NÃO ÉS
TENS QUE SEGUIR UM CAMINHO QUE NÃO É O TEU.
E APENAS SABES O QUE NÃO SABES
TENS O QUE TENS
E ESTÁS ONDE NÃO ESTÁS.

T.S.ELIOT

9:17 AM Publicado por: australopitekaComments:


Domingo, Janeiro 26, 2003



Fragmento 1

Tu sempre foste una
e sempre foste minha,
ainda quando a cor e a forma tua se fundiam
com outra forma e cor que tu não tinhas.

Por isto é que te falo de umas coisas
que não lembras
nem nunca lembrarias
de tais coisas entre mim e ti
ainda quando tu não me sabias
e dividida em outras te mostravas
e assim dispersa me ouvias.

Tu sempre foste uma
ainda quando o corpo teu
com outro corpo a sós se punha,
pois o que me tinhas a dar
a outro nunca o deste
e nunca o doarias.

Por isto é que te sinto
com tanta intimidade
e te possuo com tanta singeleza
desde quando recém vinda
ostentavas nos teus olhos grande espanto
de quem não compreendia
a antiguidade desse amor que em mim fluía.

(Affonso Romano de Sant'anna)

8:56 PM Publicado por: australopitekaComments:




1:41 AM Publicado por: australopitekaComments:




Sonetinho pra chamar à vida


"a vida é breve, rara, a vida é cara
remoinho que exaure em brisa leve
deixando somente as folhas no chão
é um raio de luz, um breve corisco

nascimento, vida fugaz
Depois...lembranças, pensamentos
Reminicências... existências
Esquecimento...águas passadas

Ah... brevidade imaginária
Por que somos o que somos?
O que somamos? Em que resultamos?

Viramos nada, poeira no vento
Calmaria..silêncio no templo
Venite vita ... adoremus

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

OUTRO DIA....

um sol vagabundo
chegou mais cedo
como quem vem da gandaia
rompeu a janela e entrou
sem respeito acorda
aqueles que dormem
o sono atrasado
dos que passam a noite
insonados da saudade.

Carlos - da casa dos gerânios)

1:26 AM Publicado por: australopitekaComments:


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