Benvindos à caverna da australopiteka. Nao estranhem se encontrarem sombras nas paredes. São resquícios da evolução.


























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Caverna da australopiteka
Sábado, Janeiro 25, 2003

1:30 AM Publicado por: australopitekaComments:




O Vento na Ilha



O vento é um cavalo:

ouve como ele corre

pelo mar, pelo céu.



Quer me levar: escuta

como ele corre o mundo

para levar-me longe.



Esconde-me em teus braços

por esta noite erma,

enquanto a chuva rompe

contra o mar e a terra

sua boca inumerável.



Escuta como o vento

me chama galopando

para levar-me longe.



Como tua fronte na minha,

tua boca em minha boca,

atados nossos corpos

ao amor que nos queima,

deixa que o vento passe

sem que possa levar-me.



Deixa que o vento corra

coroado de espuma,

que me chame e me busque

galopando na sombra,

enquanto eu, protegido

sob teus grandes olhos,

por esta noite só

descansarei, meu amor.

(Pablo Neruda)


1:28 AM Publicado por: australopitekaComments:




12:38 AM Publicado por: australopitekaComments:


Quinta-feira, Janeiro 23, 2003

Multidão



Uma folha tomba do plátano, um frémito sacode o imo do cipreste,

És tu que me chamas.

Olhos invisíveis sulcam a sombra, penetram-me como à parede os pregos,

És tu que me fitas.

Mãos invisíveis nos ombros me tocam, para as águas dormentes do lago me atraem,

És tu que me queres.

De sob as vértebras com pálidos toques ligeiros a loucura sai para o cérebro,

És tu que me penetras.

Não mais os pés pousam na terra, não mais pesa o corpo nos ares, transporta-o a vertigem

obscura



És tu que me atravessas, tu.

(Ada Negri - 1870/1945 - Itália)

9:09 PM Publicado por: australopitekaComments:




¿Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. ¿Acho que tudo está bem¿, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe.¿

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo.




2:08 AM Publicado por: australopitekaComments:


Quarta-feira, Janeiro 22, 2003

6:17 PM Publicado por: australopitekaComments:




6:15 PM Publicado por: australopitekaComments:












Plenitude



A pedra, o vento, a luz alteada,

o salso mar eterno, o grito

do mergulhão, sob o infinito azul:



¿ Deus não me deve nada.

(Hélio Pellegrino)

5:43 PM Publicado por: australopitekaComments:


Terça-feira, Janeiro 21, 2003



(Salvador Dali - The ship)

7:57 PM Publicado por: australopitekaComments:




Os Portadores de Sonhos



Em todas as profecias

está prevista a destruição do mundo.

Todas as profecias dizem

que o homem criará sua própria destruição.

Porem os séculos e a vida que sempre se renovam

criariam também uma geração de amantes

e sonhadores;

homens e mulheres que não sonharam com a

destruição do mundo,

e sim com a construção do mundo das mariposas

e dos rouxinóis.

Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.

Por trás de sua aparência cotidiana

guardavam a ternura e o sol da meia-noite.

Suas mães os encontraram chorando

por um pássaro morto

e mais tarde muitos foram encontrados

mortos como pássaros.

Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas

e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos

por um inverno de carícias.

Foi assim que proliferaram no mundo os portadores

de sonhos,

atacados ferozmente pelos portadores de profecias

que falavam

de catástrofes.

Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de

utopias,

disseram que suas palavras eram velhas

-e de fato eram porque a memória do paraíso

é antiga

no coração do homem -

os acumuladores de riquezas os temiam

e lançavam seus exércitos contra eles,

mas os portadores de sonhos faziam amor

todas as noites

e do seu ventre brotava a semente

que não somente portava sonhos mas que os

multiplicavam

e os fazia correr e falar.

E assim o mundo criou de novo a sua vida

da mesma forma que havia criado os que inventaram

a maneira

de apagar o sol.

Os portadores de sonhos sobreviveram aos

climas gélidos

e nos climas quentes pareciam brotar por

geração espontânea.

Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas

torrenciais

tiveram a ver com isso,

a verdade é que, como formiguinhas operárias

estes espécimes não deixavam de sonhar e construir

mundos formosos,

mundo de irmãos, de homens e mulheres que se

chamavam companheiros,

que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se

diante da morte,

se curavam e se cuidavam entre si,

se ajudavam

na arte de querer e na defesa da felicidade.

Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento

e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento

e de suas claras percepções

e de lá partiam os que os haviam

conhecido

portando sonhos,

sonhando com novas profecias

que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis,

onde o mundo não haveria de findar na

hecatombe

mas onde os cientistas desenhariam

fontes, jardins, brinquedos surpreendentes

para fazer mais gostosa a felicidade do homem.

São perigosos - imprimiam as grandes rotativas

São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos

São perigosos - murmuravam os artífices da guerra

Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas

Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos

Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.

Os portadores de sonhos conheciam seu poder

e porisso nada achavam de estranho

E sabiam também que a vida os havia criado

para proteger-se da morte que as profecias

anunciam

E por isso defendiam sua vida até a morte

E por isso cultivavam os jardins de sonhos

e os exportavam com grandes laços coloridos

e os profetas obscuros passavam noites

e dias inteiros

vigiando as passagens e os caminhos

procurando essas cargas perigosas

que nunca conseguiram encontrar

porque quem não tem olhos para sonhar

não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.



E no mundo sucedeu um grande tráfico

de sonhos

que os traficantes da morte não podiam estancar;

em todas as partes há pacotes com laços de fita

que só esta nova raça de homens pode ver

e a semente destes sonhos não se pode detectar

porque está envolta em corações vermelhos

ou em amplos vestidos de maternidade

onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres

que os carregam.

Dizem que a terra depois de os haver parido

desencadeou um céu de arco-íris

e soprou de fecundidade as raízes das árvores.

Nós sabemos que os vimos

Sabemos que a vida os criou

para proteger-se da morte que as profecias

anunciam.

(Gioconda Belli)
-poetisa nicaraguense-

7:44 PM Publicado por: australopitekaComments:


Segunda-feira, Janeiro 20, 2003




O Livro das Horas


Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

(Miguel Torga)






9:37 PM Publicado por: australopitekaComments:







De manha você sempre volta

)

A fresta da madrugada

respira pela tua boca

ao fundo das ruas desertas.

Luz gris os teus olhos,

doces gotas da madrugada

nas colinas escuras.

O teu passo e o teu hálito

como o vento da madrugada

submergem as casas.

A cidade arrepia-se,

exalam cheiro as pedras ¿

és a vida, o despertar.



Estrela perdida

na luz da madrugada,

brisa que zune,

calidez, hálito -

a noite chegou ao fim.



És a luz e a manhã.

(Cesare Pavese)

6:08 PM Publicado por: australopitekaComments:





Pierre Auguste Renoir
Tulips in a Vase

1:18 PM Publicado por: australopitekaComments:




De todas as nossas inquietações existe uma resvalando entre a culpa e o desejo.: Realizar nossa natureza.
Quando compreendemos que ser feliz é possivel e que somente nós podemos fazer isso ,começamos a crescer.



O Retrato de Dorian Gray

Oscar Wilde

... " - Porque considero que influir sobre uma pessoa é transmitir-lhe um pouco de sua própria alma; esta pessoa deixa de pensar por si mesma, deixa de sentir as suas paixões naturais. Suas virtude não são mais suas. Seus pecados, se houver qualquer coisa semelhante a pecados, serão emprestados. Ela tornar-se-á eco de uma música estranha, autora de uma peça que não se compôs para ela. O fim da vida é o desenvolvimento da personalidade. Realizar a sua própria natureza- eis o que todos procuramos fazer. Os homens hoje, amedrontam-se deles mesmos. Esqueceram-se dos maiores de todos os deveres, do dever que cada um deve a si próprio. Naturalmente são caridosos. Nutrem o pobre e vestem os andrajosos, mas deixam as suas almas famintas e andam nus. A coragem nos abandonou; é possível que nunca a possuíssemos! O terror da sociedade, que é a base de toda moral, o terror de Deus, que é o segredo da religião- eis as duas coisas que nos governam."

1:02 PM Publicado por: australopitekaComments:


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