Benvindos à caverna da australopiteka. Nao estranhem se encontrarem sombras nas paredes. São resquícios da evolução.


























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Caverna da australopiteka
Sábado, Janeiro 11, 2003

12:15 AM Publicado por: australopitekaComments:


Quinta-feira, Janeiro 09, 2003

10:34 PM Publicado por: australopitekaComments:




Esse poema é especialmente para o meu amigo Zé Ruy, em cuja alma dorme um menino...

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Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espirito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?


Alberto Caeiro

10:28 PM Publicado por: australopitekaComments:




7:37 PM Publicado por: australopitekaComments:




Achei esta carta oportuna diante da indicação de Gilberto Gil para a pasta da Educação.Antes que a cultura se torne show ela é , antes de tudo, um banco escolar, um livro, e fundamentalmente um professor.



Carta aberta ao Ministro da Educação.


Prezado Sr. Ministro!

No momento em que redijo estas linhas, não conheço o nome de quem foi escolhido para a pasta da Educação. Isto, porém, pouco importa. Não escrevo para aprovar ou criticar quem ocupará esse cargo no novo governo.

Esta carta foi escrita para o senhor, seja o senhor quem for, com o intuito de dizer-lhe que - venha de que partido vier, tenha sido de alguma universidade reitor ou diretor - um atributo, sim, não poderá lhe faltar: o de ter pela educação um profundo, um radical amor.

Não serei seu assessor, Sr. Ministro, mas exerço uma função dentro do seu ministério muito mais importante que qualquer outra. Eu sou, talvez também como o senhor, um professor.

E todos os problemas da educação oferecida em âmbito municipal, estadual ou federal (em instituições públicas ou particulares) são problemas que, se (é bem verdade) referem-se a questões de ordem sócio-econômico-familiar, no próprio âmbito escolar radicam e, em particular, na figura, na pessoa de cada professor.

Uma escola pode até não ter computador (e deve ter muitos, sim, senhor!), mas jamais poderá prescindir de um atualizado professor.

Uma escola pode até não ter aquela merenda do outro mundo (e deve ter, farta, variada e preparada com primor!), mas jamais poderá prescindir de um substancial professor.

Uma escola pode até não dispor de biblioteca (e deve dispor, não é nenhum favor!), mas jamais poderá prescindir de um professor que seja um apaixonado leitor.

Uma escola pode não ter quadra de futebol (e deve ter, nem preciso ser torcedor!), mas jamais poderá prescindir de um professor que saiba driblar as dificuldades, vestir a camisa, enfim, um profissional, e não um amador.

No frio ou no calor, precisamos ter nas salas de aula um professor pessoalmente comprometido com a tarefa que lhe foi confiada.

Contudo, esse professor não se improvisa, Sr. Ministro.

Esse professor deve ser ouvido e não mais emudecido por estatísticas que, no final das contas, são negadas pela verdadeira realidade.

Esse professor deve ser escolhido e orientado para que saiba vencer desobediências, carências e violências, com plena consciência do que pode fazer.

E, sobretudo, esse professor deve ser valorizado de maneira bem concreta, com salário digno, com respeito, com autoridade, com tudo aquilo que faça dele um revolucionário, um inventor, um sábio, um ator.

Sobre o autor:

Gabriel Perissé (perisse@uol.com.br), carioca, 37 anos, Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é professor universitário, coordenador-geral da ong literária PROJETO LITERÁRIO MOSAICO (www.escoladeescritores.org.br), criador e apresentador do programa de TV LER, PENSAR E ESCREVER, autor de um livro com este mesmo título (www.arteciencia.com.br/referencia/lerpensar2.htm), e autor de dicas gramaticais e etimológicas para o ZAZ (www.zaz.com.br/vestibular).

6:55 PM Publicado por: australopitekaComments:






Dance of Youth - Pablo Picasso

12:39 AM Publicado por: australopitekaComments:


Quarta-feira, Janeiro 08, 2003

Para pintar o retrato de um pássaro
Primeiro pinte uma gaiola
com a porta aberta.
Depois pinte
algo gracioso
algo simples
algo bonito
algo útil
para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore
em um jardim
em um bosque
ou em uma floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover...
Às vezes o pássaro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos, se for necessário.
A rapidez ou a lentidão do pássaro
não influi no bom resultado
do quadro.
Quando o pássaro aparecer
se ele o fizer
observe no mais profundo silêncio
até ele entrar na gaiola
e quando ele assim agir
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então,
apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar na plumagem do pássaro.
Em seguida, pinte o retrato de uma árvore
escolhendo o mais bonito de seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas, na relva,
sob o calor do verão.
e então espere até que o pássaro decida cantar.
Se ele não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza, você arranca
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome em um canto do quadro.


Jacques Prévert

Notinha da austra: Não é necessário assinar o quadro.O artista é o pássaro.

9:16 PM Publicado por: australopitekaComments:




5:18 PM Publicado por: australopitekaComments:




Ainda bem que temos a saudade.É nosso album de retratos.Consolação que os Deuses nos deram, para que qdo tudo passe possamos fechar os olhos e reviver novamente.
Dizem que a saudade dói...mas dizem tantas coisas, num mundo feito de tantas palavras e tantos sentimentos a saudade é o barco que flutua , colorindo ..colorido...
É bom sentir saudades...navegar neste mar nossos passageiros eternizados.

austra

4:58 PM Publicado por: australopitekaComments:




Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga

poeta portugues - 1907/1995

4:33 PM Publicado por: australopitekaComments:


Terça-feira, Janeiro 07, 2003

6:49 PM Publicado por: australopitekaComments:




Mensagem

Fernando Pessoa

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse,já nao separasse.
Sagrou-te,e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até o fim do mundo,
E viu-se a terra inteira,de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

4:21 PM Publicado por: australopitekaComments:




3:11 AM Publicado por: australopitekaComments:




Três poemas extraídos do livro L'Arbre de vie du vide,
Bruxelas, Le Taillis Pré, 1998
Albert Camus


Quando o olhar do mundo
desperta o do homem,
há sobrenatural no ar.
Quando o olhar do homem
desperta o do mundo,
a via transnatural é aberta.
Lá onde os abismos de ambos
se tocam,
há silêncio,
esquecimento mútuo,
incandecente reconhecimento.
Ambos abertos
à mesma identidade infinita.




O silêncio não humilha o espírito;
alimenta-o sem dizer uma só palavra.
O homem pode responder à questão:
O que é a linguagem?
A linguagem pode responder à questão:
O que é o homem?
O terceiro secretamente incluído do silêncio
responde sem responder: Isso se vive.



O silêncio não é a negação da linguagem,
mas sua aura e o perfume de sua alma.
A linguagem é para a natureza do homem
o que o silêncio é para a sua transnatureza.
A linguagem que, por natureza, é distância
só pode evocar de longe o silêncio
que é coincidência.
Sem a linguagem,
como faríamos alusão
à experiência do silêncio?

Eis a nossa força: pensar, como nós, na profundeza do mundo, nada recusar a um drama que nos diz respeito, mas, ao mesmo tempo, ter conseguido salvar a idéia de homem ao cabo deste desastre da inteligência, e tirar daí a coragem infatigável de renascer". )




"Acho que o mundo não tem sentido final, mas sei que algo nele tem sentido, e é o homem, porque é único ser que reclama um sentido"
(Albert Camus, em "Cartas a um amigo alemão")



"...numa nação livre e com a paixão pela verdade, é preciso que o homem volte a ter respeito pelo homem, sem o qual o mundo nunca deixará de ser uma imensa solidão". )






Também eu me sinto pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que era feliz e ainda o era.

3:10 AM Publicado por: australopitekaComments:


Segunda-feira, Janeiro 06, 2003

6:20 PM Publicado por: australopitekaComments:




O Reino das Coisas Simples

Belo Belo

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero

Tenho o fogo das constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou! - de tantas estrelas
[cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia a dentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas simples.

Manuel Bandeira

5:49 PM Publicado por: australopitekaComments:




5:41 PM Publicado por: australopitekaComments:




As reflexões de um escritor

"...há quase dez anos sou um homem que desperta, curado de longa, amarga e mansa loucura, e que está perplexo, e que não consegue lembrar-se, sem rir, de seus antigos erros, e que não sabe o que fazer de sua vida. Voltei a ser o viajante sem passagem que era aos sete anos: o condutor entrou no meu compartimento, ele me fita, menos severo que outrora: na realidade, só deseja ir embora, deixar-me concluir a viagem em paz; basta que lhe dê uma desculpa válida, não importa qual, ele a aceitará. Infelizmente não acho nenhuma e, aliás, não tenho mesmo vontade de procurá-la: ficaremos a sós um com o outro, no mal-estar até Dijon, onde bem sei que ninguém me espera.

Desinvesti, mas não me evadi: escrevo sempre. Que outra coisa fazer?

Nulla dies sine linea.

É meu hábito e também é meu ofício. Durante muito tempo tomei minha pena por uma espada: agora, conheço nossa impotência. Não importa: faço e farei livros; são necessários; sempre servem, apesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, ela não justifica. Mas é um produto do homem: ele se projeta, se reconhece nela; só este espelho crítico lhe oferece a própria imagem.

De resto, esse velho edifício ruinoso, minha impostura, é também meu caráter: a gente se desfaz de uma neurose, mas não se cura de si próprio.

Trecho de As palavras de Jean-Paul Sartre (1964)

5:30 PM Publicado por: australopitekaComments:


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