Benvindos à caverna da australopiteka. Nao estranhem se encontrarem sombras nas paredes. São resquícios da evolução.


























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Caverna da australopiteka
Segunda-feira, Fevereiro 10, 2003

Frase para a semana

As mulheres e as crianças são as primeiras a desistirem de afundar navios.
(Ana Cristina César)

9:36 PM Publicado por: australopitekaComments:






Pablo Picasso´- War and Peace

9:15 PM Publicado por: australopitekaComments:




Reinventar...palavra tão cheia de significados..signos..imagens...
De uma certa forma reiventamos cada dia, a velha dor transfigurada, o exorcísmo dos fantasmas perdidos dentro da nossa memória,um sonho desmedido de uma desmedida felicidade..
Reinventamos a coragem necessária, reconstruimos ...desconstruimos...para continuar reinventado.
Entretanto, em nosso edifício interior alguma coisa dói.
Em nossos olhos formam-se rios imensos.


» Reinvenção


A vida só é possível

reinventada.

Anda o sol pelas campinas

e passeia a mão dourada

pelas águas, pelas folhas...

Ah! tudo bolhas

que vem de fundas piscinas

de ilusionismo... ? mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

Vem a lua, vem, retira

as algemas dos meus braços.

Projeto-me por espaços

cheios de tua Figura.

Tudo mentira! Mentira

da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...

Só ? no tempo equilibrada,

desprendo-me do balanço

que além do tempo me leva.

Só ? na treva,

fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

(Cecília Meireles)

9:00 PM Publicado por: australopitekaComments:


Quinta-feira, Fevereiro 06, 2003

2:35 PM Publicado por: australopitekaComments:




Às vezes me faço uma promessa que nao cumpro: nao ler jornais.Eles chegam todos os dias com suas manchetes azedas, tendenciosas e me chamam quase sibilando , e lá vou eu, abro os editoriais e as palavras estão lá, cada uma com sua verdade, cada qual com sua visão de mun do.Entretanto, os fatos, estes não podem ser modificados pela verdade individual ou por uma simples palavra escrita sob a luz ou a sombra de cada olhar.
Ando assim ultimamente, não quero saber do ultimo crime, da recente improbidade politica, das estatísticas da morte anunciada pelos transgênicos, cigarro, acidentes de trânsito.Ignoro o caderno de esportes, os classificados da elite, as críticas pretensiosamente culturais sobre o ultimo livro ou espetáculo.E da cochia do poder eu nao quero mais entender a ideologia.
Então me cai às mãos o poema de Wislawa Szymborska, Polonia, nobelista em 1996 ,e sua poesia humanista me faz repensar...


Os filhos da epoca

Somos os filhos da época,
e a época é política.
Todas as coisas - minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.
Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra - político.
Mesmo caminhando contra o vento
dos passos políticos
sobre solo político.
Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já nao dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.
Oh, querida que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.
Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.
Enquanto isso, os homens se matam,
os animais são massacrados,
as casas queimadas,
os campos se tornam agrestes
como nas épocas passadas
e menos políticas.

Wislawa Szymborska - poetisa e escritora polonesa
tradução de Ana Cristina César

1:53 PM Publicado por: australopitekaComments:






H.Leung - aquarela - River Mist

1:43 AM Publicado por: australopitekaComments:




Prá vc...que eu amo...

1:14 AM Publicado por: australopitekaComments:




Elegia em forma de epístola


A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.

Nascemos sem passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.

O rio da história corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.

Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
¿ imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.

O silêncio é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.

Marinheiros duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.

Albano Martins - poeta e escritor português



12:55 AM Publicado por: australopitekaComments:


Terça-feira, Fevereiro 04, 2003

1:08 PM Publicado por: australopitekaComments:




Hoje me surpreendi com o calendário novamente, o tempo me pareceu curto demais, o relógio parece sofrer de taquicardia e a vida vai nos escapando pelos dedos.Falta-nos horas..e eu temo perder o contato com as coisas que realmente importam, aquele dolce far niente de um mundo mais simples, de relações mais profundas, conversas sem pressa.O mundo moderno nos roubou a cumplicidade, legando-nos o hedonismo e, por vezes, como hoje, tudo parece absolutamente non sense.

12:57 PM Publicado por: australopitekaComments:


Segunda-feira, Fevereiro 03, 2003

O Tempo
(Carlinhos Vergueiro)

O tempo, não é minha amiga,
Aquilo que você pensou,
As festas, as fotos antigas,
As coisas que você guardou,

Os trastes, os móveis, as tranças,
Os vinhos, os velhos cristais,
Lembranças, lembranças demais,

O tempo não para no porto,
Não apita na curva,
não espera ninguém,

Você vem deitar no meu ombro,
Querendo de novo ficar,
Eu olho e até me assombro,
Como pode esse tempo passar,

O tempo é areia que escapa,
Até entre os dedos do amor,
Depois há o vazio, é o nada,
É areia que o vento levou,

O medo correndo nas veias,
Deixou tanta vida prá traz,
E a gente ficou de mãos cheias,
Com as coisas que não valem mais,

E fica um gosto de usado,
Naquilo que nem se provou,
A gente dormiu acordado,
E o tempo depressa passou!

10:18 PM Publicado por: australopitekaComments:




Excelente site para o incentivo e aprendizado da leitura.
Leia Brasil


7:35 PM Publicado por: australopitekaComments:





Missão

Somos uma ONG especializada no incentivo e promoção da leitura como ferramenta de combate ao analfabetismo funcional.
Queremos fazer um Brasil de leitores.

Ações

Democratizamos livros e outros
bens culturais por empréstimo.

Oferecemos cursos, oficinas e treinamento continuado para educadores, bibliotecários e outros agentes de leitura.

Planejamos e realizamos eventos, espetáculos, encontros culturais e
projetos promocionais em torno
do livro e da leitura.

Incentivamos a produção de textos, editamos os Cadernos de Leituras Compartilhadas, armazenamos e divulgamos informações
sobre a promoção da leitura.

7:27 PM Publicado por: australopitekaComments:




12:55 PM Publicado por: australopitekaComments:






Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

(Mario de Sá-Carneiro)




12:54 PM Publicado por: australopitekaComments:




1:11 AM Publicado por: australopitekaComments:




Fênix
Não é verdade a tua solidão. A um canto,
do lado de fora, meu coração espera:
fênix dolorosa, consome-se e renasce,
fiel. Quem sabe,
quando abrires uma fresta em tua porta,
te alegrarás vendo-o aí, guardando
essa luz que se alastrará por rios sem fim
de uma geografia desconhecida:
e só os escolhidos entenderão.

Lya Luft

12:16 AM Publicado por: australopitekaComments:


Sábado, Fevereiro 01, 2003

6:01 PM Publicado por: australopitekaComments:






CANÇÃO



O peso do mundo

é o amor.

Sob o fardo

da solidão,

sob o fardo

da insatisfação



o peso

o peso que carregamos

é o amor.



Quem poderia negá-lo?

Em sonhos

nos toca

o corpo,

em pensamentos

constrói

um milagre,

na imaginação

aflige-se

até tornar-se

humano -

sai para fora do coração

ardendo de pureza -



pois o fardo da vida

é o amor,



mas nós carregamos o peso

cansados

e assim temos que descansar

nos braços do amor

finalmente

temos que descansar nos braços

do amor.



Nenhum descanso

sem amor,

nenhum sono

sem sonhos

de amor -

quer esteja eu louco ou frio,

obcecado por anjos

ou por máquinas

o último desejo

é o amor

- não pode ser amargo

não pode ser negado

não pode ser contido

quando negado:

o peso é demasiado

deve dar-se
sem nada de volta

assim como o pensamento

é dado

na solidão

em toda a excelência

do seu excesso.



Os corpos quentes

brilham juntos

na escuridão,

a mão se move

para o centro

da carne,

a pele treme

na felicidade

e a alma sobe

feliz até o olho -



sim, sim,

é isso que

eu queria,

eu sempre quis,

eu sempre quis

voltar

ao corpo

em que nasci.

Allen Ginsberg - 1926/1997

5:35 PM Publicado por: australopitekaComments:




Frase para a semana


As mulheres e as crianças são as primeiras que
desistem de afundar navios.

(Ana Cristina César)




5:25 PM Publicado por: australopitekaComments:


Sexta-feira, Janeiro 31, 2003



Salvador Dali - Basket of a bread- 1926

6:24 PM Publicado por: australopitekaComments:




...e são tantas fomes espalhadas pelo mundo....


Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

José Saramago

6:05 PM Publicado por: australopitekaComments:


Quinta-feira, Janeiro 30, 2003



Vincent Van Gogh - A Vase of roses - 1890

2:27 PM Publicado por: australopitekaComments:




Olha, está chovendo na roseira....
e eu sinto tanta saudades de vc...
e a Gal continua cantando divinamente esta música do Jobim..
E eu continuo sentindo tanto a tua falta....

2:23 PM Publicado por: australopitekaComments:




2:12 PM Publicado por: australopitekaComments:





Para os meus filhos...para os nossos filhos...para todos os filhos do mundo...nossas únicas e verdadeiras raízes...,

com amor....


CARTA A MEUS FILHOS ......*





Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.



(...)


Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia

- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -

não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.





Lisboa, 25/6/1959


Jorge de Sena




2:04 PM Publicado por: australopitekaComments:


Quarta-feira, Janeiro 29, 2003

7:34 PM Publicado por: australopitekaComments:




À propósito disto...


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.

Maiakovski


6:40 PM Publicado por: australopitekaComments:


Terça-feira, Janeiro 28, 2003

9:52 PM Publicado por: australopitekaComments:




Encontramos dentro de nós dois também isto...a liberdade de voar juntos..


Tu a quem não digo...



Porque é culpa, se alguma coisa é culpa,

não multiplicar a liberdade de um ser amado

de toda a liberdade que em nós possamos achar.

Onde amamos, temos apenas isto:

deixar-nos uns aos outros; porque prender-nos

é-nos fácil e não é preciso aprendê-lo.

(Rainer maria Rilke)


7:19 PM Publicado por: australopitekaComments:


Segunda-feira, Janeiro 27, 2003



(Pablo Picasso - D.Quixote)

10:14 AM Publicado por: australopitekaComments:






PARA ALCANÇARES O QUE NÃO SABES
TENS QUE SEGUIR O CAMINHO DA IGNORANCIA.
PARA POSSUIRES O QUE NÃO POSSUIS
TENS QUE SEGUIR O CAMINHO DA RENÚNCIA.
PARA SERES O QUE NÃO ÉS
TENS QUE SEGUIR UM CAMINHO QUE NÃO É O TEU.
E APENAS SABES O QUE NÃO SABES
TENS O QUE TENS
E ESTÁS ONDE NÃO ESTÁS.

T.S.ELIOT

9:17 AM Publicado por: australopitekaComments:


Domingo, Janeiro 26, 2003



Fragmento 1

Tu sempre foste una
e sempre foste minha,
ainda quando a cor e a forma tua se fundiam
com outra forma e cor que tu não tinhas.

Por isto é que te falo de umas coisas
que não lembras
nem nunca lembrarias
de tais coisas entre mim e ti
ainda quando tu não me sabias
e dividida em outras te mostravas
e assim dispersa me ouvias.

Tu sempre foste uma
ainda quando o corpo teu
com outro corpo a sós se punha,
pois o que me tinhas a dar
a outro nunca o deste
e nunca o doarias.

Por isto é que te sinto
com tanta intimidade
e te possuo com tanta singeleza
desde quando recém vinda
ostentavas nos teus olhos grande espanto
de quem não compreendia
a antiguidade desse amor que em mim fluía.

(Affonso Romano de Sant'anna)

8:56 PM Publicado por: australopitekaComments:




1:41 AM Publicado por: australopitekaComments:




Sonetinho pra chamar à vida


"a vida é breve, rara, a vida é cara
remoinho que exaure em brisa leve
deixando somente as folhas no chão
é um raio de luz, um breve corisco

nascimento, vida fugaz
Depois...lembranças, pensamentos
Reminicências... existências
Esquecimento...águas passadas

Ah... brevidade imaginária
Por que somos o que somos?
O que somamos? Em que resultamos?

Viramos nada, poeira no vento
Calmaria..silêncio no templo
Venite vita ... adoremus

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

OUTRO DIA....

um sol vagabundo
chegou mais cedo
como quem vem da gandaia
rompeu a janela e entrou
sem respeito acorda
aqueles que dormem
o sono atrasado
dos que passam a noite
insonados da saudade.

Carlos - da casa dos gerânios)

1:26 AM Publicado por: australopitekaComments:


Sábado, Janeiro 25, 2003

1:30 AM Publicado por: australopitekaComments:




O Vento na Ilha



O vento é um cavalo:

ouve como ele corre

pelo mar, pelo céu.



Quer me levar: escuta

como ele corre o mundo

para levar-me longe.



Esconde-me em teus braços

por esta noite erma,

enquanto a chuva rompe

contra o mar e a terra

sua boca inumerável.



Escuta como o vento

me chama galopando

para levar-me longe.



Como tua fronte na minha,

tua boca em minha boca,

atados nossos corpos

ao amor que nos queima,

deixa que o vento passe

sem que possa levar-me.



Deixa que o vento corra

coroado de espuma,

que me chame e me busque

galopando na sombra,

enquanto eu, protegido

sob teus grandes olhos,

por esta noite só

descansarei, meu amor.

(Pablo Neruda)


1:28 AM Publicado por: australopitekaComments:




12:38 AM Publicado por: australopitekaComments:


Quinta-feira, Janeiro 23, 2003

Multidão



Uma folha tomba do plátano, um frémito sacode o imo do cipreste,

És tu que me chamas.

Olhos invisíveis sulcam a sombra, penetram-me como à parede os pregos,

És tu que me fitas.

Mãos invisíveis nos ombros me tocam, para as águas dormentes do lago me atraem,

És tu que me queres.

De sob as vértebras com pálidos toques ligeiros a loucura sai para o cérebro,

És tu que me penetras.

Não mais os pés pousam na terra, não mais pesa o corpo nos ares, transporta-o a vertigem

obscura



És tu que me atravessas, tu.

(Ada Negri - 1870/1945 - Itália)

9:09 PM Publicado por: australopitekaComments:




¿Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. ¿Acho que tudo está bem¿, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe.¿

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo.




2:08 AM Publicado por: australopitekaComments:


Quarta-feira, Janeiro 22, 2003

6:17 PM Publicado por: australopitekaComments:




6:15 PM Publicado por: australopitekaComments:












Plenitude



A pedra, o vento, a luz alteada,

o salso mar eterno, o grito

do mergulhão, sob o infinito azul:



¿ Deus não me deve nada.

(Hélio Pellegrino)

5:43 PM Publicado por: australopitekaComments:


Terça-feira, Janeiro 21, 2003



(Salvador Dali - The ship)

7:57 PM Publicado por: australopitekaComments:




Os Portadores de Sonhos



Em todas as profecias

está prevista a destruição do mundo.

Todas as profecias dizem

que o homem criará sua própria destruição.

Porem os séculos e a vida que sempre se renovam

criariam também uma geração de amantes

e sonhadores;

homens e mulheres que não sonharam com a

destruição do mundo,

e sim com a construção do mundo das mariposas

e dos rouxinóis.

Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.

Por trás de sua aparência cotidiana

guardavam a ternura e o sol da meia-noite.

Suas mães os encontraram chorando

por um pássaro morto

e mais tarde muitos foram encontrados

mortos como pássaros.

Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas

e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos

por um inverno de carícias.

Foi assim que proliferaram no mundo os portadores

de sonhos,

atacados ferozmente pelos portadores de profecias

que falavam

de catástrofes.

Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de

utopias,

disseram que suas palavras eram velhas

-e de fato eram porque a memória do paraíso

é antiga

no coração do homem -

os acumuladores de riquezas os temiam

e lançavam seus exércitos contra eles,

mas os portadores de sonhos faziam amor

todas as noites

e do seu ventre brotava a semente

que não somente portava sonhos mas que os

multiplicavam

e os fazia correr e falar.

E assim o mundo criou de novo a sua vida

da mesma forma que havia criado os que inventaram

a maneira

de apagar o sol.

Os portadores de sonhos sobreviveram aos

climas gélidos

e nos climas quentes pareciam brotar por

geração espontânea.

Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas

torrenciais

tiveram a ver com isso,

a verdade é que, como formiguinhas operárias

estes espécimes não deixavam de sonhar e construir

mundos formosos,

mundo de irmãos, de homens e mulheres que se

chamavam companheiros,

que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se

diante da morte,

se curavam e se cuidavam entre si,

se ajudavam

na arte de querer e na defesa da felicidade.

Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento

e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento

e de suas claras percepções

e de lá partiam os que os haviam

conhecido

portando sonhos,

sonhando com novas profecias

que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis,

onde o mundo não haveria de findar na

hecatombe

mas onde os cientistas desenhariam

fontes, jardins, brinquedos surpreendentes

para fazer mais gostosa a felicidade do homem.

São perigosos - imprimiam as grandes rotativas

São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos

São perigosos - murmuravam os artífices da guerra

Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas

Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos

Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.

Os portadores de sonhos conheciam seu poder

e porisso nada achavam de estranho

E sabiam também que a vida os havia criado

para proteger-se da morte que as profecias

anunciam

E por isso defendiam sua vida até a morte

E por isso cultivavam os jardins de sonhos

e os exportavam com grandes laços coloridos

e os profetas obscuros passavam noites

e dias inteiros

vigiando as passagens e os caminhos

procurando essas cargas perigosas

que nunca conseguiram encontrar

porque quem não tem olhos para sonhar

não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.



E no mundo sucedeu um grande tráfico

de sonhos

que os traficantes da morte não podiam estancar;

em todas as partes há pacotes com laços de fita

que só esta nova raça de homens pode ver

e a semente destes sonhos não se pode detectar

porque está envolta em corações vermelhos

ou em amplos vestidos de maternidade

onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres

que os carregam.

Dizem que a terra depois de os haver parido

desencadeou um céu de arco-íris

e soprou de fecundidade as raízes das árvores.

Nós sabemos que os vimos

Sabemos que a vida os criou

para proteger-se da morte que as profecias

anunciam.

(Gioconda Belli)
-poetisa nicaraguense-

7:44 PM Publicado por: australopitekaComments:


Segunda-feira, Janeiro 20, 2003




O Livro das Horas


Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

(Miguel Torga)






9:37 PM Publicado por: australopitekaComments:







De manha você sempre volta

)

A fresta da madrugada

respira pela tua boca

ao fundo das ruas desertas.

Luz gris os teus olhos,

doces gotas da madrugada

nas colinas escuras.

O teu passo e o teu hálito

como o vento da madrugada

submergem as casas.

A cidade arrepia-se,

exalam cheiro as pedras ¿

és a vida, o despertar.



Estrela perdida

na luz da madrugada,

brisa que zune,

calidez, hálito -

a noite chegou ao fim.



És a luz e a manhã.

(Cesare Pavese)

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Pierre Auguste Renoir
Tulips in a Vase

1:18 PM Publicado por: australopitekaComments:




De todas as nossas inquietações existe uma resvalando entre a culpa e o desejo.: Realizar nossa natureza.
Quando compreendemos que ser feliz é possivel e que somente nós podemos fazer isso ,começamos a crescer.



O Retrato de Dorian Gray

Oscar Wilde

... " - Porque considero que influir sobre uma pessoa é transmitir-lhe um pouco de sua própria alma; esta pessoa deixa de pensar por si mesma, deixa de sentir as suas paixões naturais. Suas virtude não são mais suas. Seus pecados, se houver qualquer coisa semelhante a pecados, serão emprestados. Ela tornar-se-á eco de uma música estranha, autora de uma peça que não se compôs para ela. O fim da vida é o desenvolvimento da personalidade. Realizar a sua própria natureza- eis o que todos procuramos fazer. Os homens hoje, amedrontam-se deles mesmos. Esqueceram-se dos maiores de todos os deveres, do dever que cada um deve a si próprio. Naturalmente são caridosos. Nutrem o pobre e vestem os andrajosos, mas deixam as suas almas famintas e andam nus. A coragem nos abandonou; é possível que nunca a possuíssemos! O terror da sociedade, que é a base de toda moral, o terror de Deus, que é o segredo da religião- eis as duas coisas que nos governam."

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Quarta-feira, Janeiro 15, 2003

Equívocos da Igreja

Vivemos tempos estranhos..de tantos deuses e nenhuma crença verdadeira, de gestuais ensinados em academias de marketing pessoal, e nenhum expressando uma chama íntima que o motive.

Vivemos tempos de tantas informações e nenhuma tolerância, em que a verdade se confunde com a indiferença com que vemos o outro, usamos a ciência, mas nao usamos a alma.Tempos estranhos esses.Inventaram um Deus que ignora nossa porção divina e nos deixa a culpa como herança.Culpa por ser, por nao ser, por escolher , ou não , ser.

E assim vamos vivemos, de cenas, em atos, esta parte tragicômica do ser humano, e de intolerantes nos passamos por construtores de valores, zelamos por uma moral onde tudo é permitido em nome desse Deus criado, o deus morto de Nietzsche.É permitido discriminar, é permitido culpar, é permitido ser infeliz.É permitido ferir até o âmago os nossos contrários, é permitido isolar minorias que nao professam a nossa fé, a nossa moral, o nosso Deus irado.

Este episódio envolvendo o Padre Marcelo e a figura irreverente de Jorge Laffond é sem dúvida alguma algo que se encaixa perfeitamente dentro desse universo arbitrário que a fé equivocada representa.

Acredito em Deus, mas longe dos dogmas humanos.Ele conhece nossa fragilidade e nossa força, é redentor de nosso destino absurdo, nao o Juiz cruel de nossa condição.

Não costumo polemizar a religião, pois cada homem encontra seu próprio Deus através de seu próprio caminho, mas deixo aqui minha perplexidade.

"O homem só é inteligente porque tem irmãos" - (Anaxágoras)


austra

8:20 PM Publicado por: australopitekaComments:






Auguste Rodin - Eternal Springer

12:34 PM Publicado por: australopitekaComments:




Entendimento

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector -1920/1977

11:41 AM Publicado por: australopitekaComments:


Terça-feira, Janeiro 14, 2003

Estas são para mim...é meu aniversário!!!!!

7:30 PM Publicado por: australopitekaComments:




7:29 PM Publicado por: australopitekaComments:




12:57 AM Publicado por: australopitekaComments:


Segunda-feira, Janeiro 13, 2003

Prá vc....
"Considero a vida humana como uma noite profunda e triste, que não se suportaria se, num ponto ou noutro, não rutilassem repentinos clarões, de uma luminosidade tão consoladora e maravilhosa que seus segundos podem apagar e justificar anos de escuridão."

Herman Hesse

7:34 PM Publicado por: australopitekaComments:


Domingo, Janeiro 12, 2003

5:15 PM Publicado por: australopitekaComments:




ESTRELA

Escutai! Se as estrelas se acendem
será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia,
no coração dos turbilhões de poeira;
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus,
temendo chegar atrasado,
e que lhe beija chorando
a mão fibrosa.
Implora! Precisa absolutamente
duma estrela lá no alto!
Jura! Que não poderia mais suportar
essa tortura de um céu sem estrelas!
Depois vai-se embora,
atormentado, mas bancando o gaiato
e diz a alguém que passa:
"Muito bem! Assim está melhor agora, não é?
Não tens mais medo, hein?"

Escutai, pois! Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.

1913 - Wladimir Maiakówski

5:07 PM Publicado por: australopitekaComments:


Sábado, Janeiro 11, 2003

12:15 AM Publicado por: australopitekaComments:


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